domingo, 14 de junho de 2009

A dramática palavra.

Chegamos à algum lugar

Tivemos como guia o acaso

Reuniões de códigos decifrados

Encontramos a dramática palavra


A última palavra dita

No maior encontro da sua vida


A última palavra ouvida

Pelo amigo que morreu


Essa palavra sem nexo

Sem intervalo

De impossível analise


É ela que ecoou no vale

Que percorre os trilhos do infinito

Desfigurada, perdida, insubstituível


Descarga absurda de sentimento

Eternamente distribuído

Em um som que vai além

Muito além do permitido


Fora do alcance de ensaios

Fruto do puro improviso


O calculo exato de toda palavra

O gesto flexível que se faz o drama


O último toque na pessoa amada

O último toque naquele que ama


Ah, a dramática palavra

Forma insegura de vida

Decomposição automática

De toda palavra contida


O último pedaço de voz

A despedida involuntária


Encontramos agora

O que a vida nos resguarda

Como uma última chama

A dramática palavra:

esperança

Alguma coisa qualquer.











Vou pra casa me apaixonar

Por alguma coisa perdida

Que esteja por lá...

Por algo esquecido

Quero uma paixão qualquer

Qualquer foto

Verso

Qualquer mulher


Qualquer mulher que cruze comigo

Estou indo me apaixonar

Se encontrar pelo caminho

Por lá mesmo fico

Nem acabo de chegar


Um sorriso qualquer

Um segundo de choro

Um ensaio de abandono

Qualquer coisa que apareça

De repente

E me encante


Estou indo pra casa

Quem sabe o que encontrarei lá?

Seja o que for

Eu darei uma chance

Estou disposto

A me apaixonar

sábado, 13 de junho de 2009

Sugestão.

Aqui, onde estamos

Não há sentimentos

Apenas crises existenciais

Nada de mais


Se me pergunto sobre meu problema

E não acho solução

Procuro não acreditar

Que um dia houve preocupação


Se me desfaço nessa bagunça

Sem mesmo dar opinião

Esqueço o que já fui um dia

Aqui só existe ilusão


O fato é que, analisado

Dou a seguinte sugestão:

Antes viver no pecado

Que morrer na solidão.

Ação do tempo.

Apodrece, apodrece e apodrece...

Que mais pode o tempo

Se não fazer apodrecer?

Apodrece o ferro

O concreto

O silencio

Apodrece o corpo do morto

Que, em meias tantas aventuras

Nunca se esqueceu de apodrecer

E também a fruta

Que fica tão doce e madura

Pra depois apodrecer

O apodrecimento é constante

O tempo também é constante

Constantes são as coisas

Que torturam o coração

O que é vivo apodrece

Apodrece o que é morto

Mas o que não existe

Esse nunca apodrecerá!

Eu morri.

Eu morri e nem percebi,
Morri sem ter filhos,
Morri sem sorrir,
Morri como os que morrem
Dormindo no avião que cai,
Como morrem as flores,
Pisoteadas de repente,
Eu morri sem dor,
Sem nem mesmo estar doente,
Como quem morre de amor,
Ou como quem nada sente,
Morri sem velório,
Sem missa de corpo presente,
Sem enterro,
Sem ritual,
Eu morri, simplesmente,
Morri sem último pedido,
Sem ultimo direito,
Sem ultimo beijo,
Sem ultimo delírio,
Só morri e mais nada,
Como um indigente na estrada,
Não tive viúva,
Não tive lágrima,
Nem desespero,
Eu morri e ninguém percebeu,
Não tive despedida,
Ninguém me disse adeus,
Não era tarde de domingo,
E nem manhã de verão,
Não tive flores me cobrindo,
Nem sete palmos de chão,
Não tive salva de tiros,
Eu só morri,
Morri e nem percebi,
Morri,
No exato momento em que te perdi.